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'Não existe só um jeito de ser preto no Brasil': após crítica a enredo da Portela, escritora gaúcha defende relevância do movimento negro no RS
13/02/2026
(Foto: Reprodução) Após crítica a enredo da Portela, escritora gaúcha defende movimento negro do RS
A escritora e podcaster Luana Carvalho publicou um vídeo em suas redes sociais para rebater críticas sobre o enredo da Portela para o Carnaval 2026, que homenageará a cultura afro-gaúcha. Na gravação, ela, que é gaúcha mas vive no Rio de Janeiro, defende a relevância da história da população negra do Rio Grande do Sul e afirma que o tema da escola de samba é uma resposta a um "silenciamento histórico".
"Eu sei que deve ser difícil de engolir quando a realidade confronta uma ideia que você tem de um lugar e de uma gente que você desconhece", inicia Carvalho. "Mas pra além de nós, negros gaúchos, existirmos, a nossa história merece ser contada. E a partir da nossa própria voz", completa.
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O enredo da Portela, "O Mistério do Príncipe do Bará", contará a história do Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, figura de origem africana que viveu em Porto Alegre e foi fundamental para a estruturação do Batuque, principal religião de matriz africana do Sul.
Para a escritora, questionar a importância do tema reforça a necessidade do desfile.
"Continuar deslegitimando a existência e a importância das pessoas negras e gaúchas é dar as mãos para a ignorância", afirma.
O Censo 2022 revelou que o Rio Grande do Sul é o estado com maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras. Dados mostram que 3,2% da população gaúcha segue alguma religião de matriz africana. No Brasil, essa proporção é de 1%.
"Não existe só um jeito de ser preto no Brasil. Não existe só um tipo de negritude a ser contada a história. E nós estamos cansados de sentir vergonha de onde nós viemos", relata.
Após crítica a enredo da Portela, escritora gaúcha defende relevância do movimento negro no RS
Redes sociais/@lxccarvalho e Reprodução/TV Globo
Para reforçar a relevância da população negra do estado, Carvalho lista feitos históricos, como a criação do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. A data rememora a morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil no período colonial, assassinado em 1695, e foi proposta por um grupo de estudiosos e ativistas gaúchos como alternativa à celebração da Abolição da Escravatura, em 13 de maio.
A escritora ressalta que o reconhecimento da história negra não apaga o racismo existente no estado.
"Usar isso como argumento enquanto duvida da necessidade desse enredo é muito mais racista do que parece. Tem preto no sul e nós somos muitos", conclui.
De acordo com Everton Alfonsin, da Federação Afro-Umbandista Espiritualista do RS (FAUERS), a presença marcante de seguidores de religiões de matriz africana no estado tem relação com o intenso tráfico de pessoas escravizadas vindas da África para o estado durante o período escravocrata no Brasil.
"Eu quero muito que as pessoas conheçam essa história, que as pessoas comecem a olhar pra nós, negros gaúchos com o respeito que a gente merece, não como se a gente fosse menos negro que os negros do resto do país", afirma a escritora, em entrevista ao g1.
O enredo
O enredo da escola de samba carioca para o carnaval de 2026 será uma homenagem ao príncipe do Benin que viveu em Porto Alegre do início do século XX até sua morte, em 1935. A escola levará à Sapucaí a religiosidade, a cultura e a resistência negra do Rio Grande do Sul.
A narrativa do desfile começa com o Negrinho do Pastoreio, que encontra uma coroa e a leva ao orixá Bará. A coroa revela a história do Príncipe Custódio, seu exílio e sua chegada ao Rio Grande do Sul, onde se tornou um líder para o povo negro recém-liberto, unindo diferentes nações africanas e dando origem ao Batuque.
O príncipe é considerado um dos pilares da cultura afro-gaúcha e do fortalecimento da negritude no Sul, tendo ajudado a estruturar o Batuque, principal religião de matriz africana da região. Em Porto Alegre, Custódio frequentava ambientes da elite e mantinha relações com políticos importantes da época, como Julio de Castilhos e Borges de Medeiros.
Em 2020, a Câmara de Vereadores aprovou o projeto de lei que tombou o Bará do Mercado Público como patrimônio histórico-cultural de Porto Alegre. Na crença do batuque, o espaço no centro do Mercado Público de Porto Alegre abriga o orixá Bará, uma entidade que abre caminhos e representa a fartura.
Segundo Luana, sua conexão com a escola se aprofundou durante um voo para sua cidade natal, quando um samba da Portela a emocionou a ponto de chorar incontrolavelmente. Essa paixão quase instantânea a levou a estudar a história da agremiação e a se sentir em casa na quadra de Madureira, onde foi acolhida pela comunidade portelense.
"Jamais imaginei que a minha religião, a história da população negra do Rio Grande do Sul e uma das coisas que eu mais amo na vida que é a Portela estariam juntos. Eu acredito que muito daquilo que eu senti no avião naquele ano era para dar nisso, nesse momento de hoje", relata a escritora.
A ligação dela com o enredo de 2026 é ainda mais profunda e pessoal pois ela mesma foi, indiretamente, uma de suas inspirações. A equipe de carnavalescos da Portela revelou a ela que uma antiga postagem sua recomendando o documentário "Cavalo de Santo", sobre as religiões de matriz africana no Sul, foi uma das fontes usadas na pesquisa para o desfile.
Como reconhecimento e por sua representatividade, a escola a informou sobre o tema antes do anúncio oficial e a convidou para desfilar como destaque. Para Luana, o desfile transcende a alegria do Carnaval e se torna uma missão.
"Eu quero que as pessoas olhem pra população negra do Rio Grande do Sul com mais respeito, com mais carinho, que as pessoas viajem pra lá pra conhecer a gente, pra conhecer o Batuque, porque a gente tá lá, tá meio que lutando sozinho, sabe? Tá meio que gritando, e o resto do país se nega a nos ouvir por conta de um estereótipo."
A Portela será a terceira escola a desfilar no domingo de carnaval, dia 15 de fevereiro, com previsão de início entre 0h55 e 1h15.
Confira a letra
Autores: Val Tinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena
Intérprete: Zé Paulo Sierra
Ae Oni Bará! Ae Babá Lodé!
A Portela reunida carregada no dendê
Sob o céu do Rio Grande
Tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa do Bará!
É Bará, é Bará… ôô!
Quem rege a sua coroa, Bará?
É o rei de Sapaktá
Alafiá do destino no Ifá!
Tem mistério que encandeia
Pro batuque começar
Sou mistério que encandeia
Pra Portela incorporar
Vai, Negrinho… vai fazer libertação
Resgatar a tradição
Onde a África assenta
Ó, corre gira, vem revelar
O reino de Ajudá
O Pampa é terra negra em sua essência
Alupo, meu senhor, alupô!
Vai ter xirê no toque do tambor
Alumia o cruzeiro… chave de encruzilhada
É macumba de Custódio no
Romper da madrugada
Curandeiro, feiticeiro,
Batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá (ô, iaiá!)
Fundamento em seu terreiro
Resiste a fé no orixá
Da crença no Mercado
Ao rito do Rosário
Ainda segue vivo o seu legado
Portela… tu és o próprio trono de Zumbi
Do samba, a majestade em cada ori
Yalorixá de todo axé
Enquanto houver um pastoreio
A chama não apagará
Não há demanda que o povo
Preto não possa enfrentar
Enredo e samba: Portela 2026
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